De volta à sala de aula, estudantes da EJAI encontram acolhimento, formação profissional e novas possibilidades

Sala de aula de Educação de Jovens e Adultos (EJAI) durante atividade pedagógica.
Aos 57 anos, Ana Maria de Souza Silva decidiu voltar para a escola por um motivo que, para ela, representa uma conquista de vida: aprender a ler. Depois de ter os estudos interrompidos ainda na infância pelas dificuldades enfrentadas pela família, ela retomou os estudos na Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI) com um objetivo simples e, ao mesmo tempo, transformador: conquistar autonomia para ler e escrever.
Ana Maria mantém o sonho de seguir estudando mesmo depois de tantos anos longe da escola. “Eu vou querer ser advogada. Eu quero poder sair para algum lugar e saber o que está escrito ali. Se você mandar uma mensagem escrita para mim, eu vou conseguir ler”, afirma.
A história dela representa uma realidade presente na EJAI de Correntina: pessoas que interromperam os estudos para trabalhar, ajudar a família ou por outras circunstâncias da vida e que agora encontram condições para retomar a formação. Em 2024, o município tinha menos de 200 estudantes matriculados na modalidade. Atualmente, são mais de 750, com novas turmas em formação. O crescimento das matrículas é acompanhado por medidas voltadas à permanência dos estudantes e à continuidade da formação.
Acolhimento e permanência fazem parte da rotina
O retorno à escola, muitas vezes depois de décadas, vem acompanhado de desafios que vão além do conteúdo escolar. Trabalho, responsabilidades familiares, falta de tempo, cansaço e insegurança estão entre as dificuldades enfrentadas por parte dos estudantes.
Para enfrentar essas situações, a rede utiliza a busca ativa e o acompanhamento dos estudantes. Quando há sinais de afastamento, a equipe procura o aluno e conversa sobre as dificuldades para tentar criar condições para o retorno. O trabalho ainda conta com a parceria de agentes comunitários de saúde e de endemias, ampliando a rede de acompanhamento e apoio aos alunos.
A equipe pedagógica também realiza visitas às escolas, acompanha professores e adapta projetos às características de cada comunidade. Para apoiar a permanência, o município disponibiliza transporte escolar, merenda, uniformes e material escolar. Entre as medidas adotadas está a entrega mensal de cesta básica aos estudantes que atingem pelo menos 70% de frequência. A distribuição é feita de forma reservada, na unidade escolar ou na residência do estudante.
Para Mônica Souza, coordenadora pedagógica da EJAI do Ensino Fundamental II, esse acompanhamento permite perceber mudanças concretas no percurso dos estudantes.
“Quando trabalhamos com jovens, adultos e idosos, encontramos uma grande diversidade de saberes construídos a partir das vivências diárias e das experiências de cada comunidade. Acompanhar esse processo e ver alunos que antes não eram alfabetizados conseguirem ler, escrever e até fazer apresentações é muito gratificante para nós”, ressalta.
É nesse ambiente que Ana Maria vem reconstruindo sua relação com a escola. Ela conta que, durante muitos anos, sentiu vergonha de admitir que não sabia ler e chegou a pedir que mensagens fossem enviadas por áudio para não precisar revelar essa dificuldade. O acolhimento encontrado na sala de aula também tem ajudado Ana Maria a superar a insegurança de voltar a estudar depois de tantos anos. A professora Betinha acompanha de perto esse processo e procura incentivá-la nos momentos de dificuldade.
“Às vezes eu digo para ela: ‘Eu não vou conseguir’. Aí ela fala: ‘Consegue, dona Ana, vamos!’. Ela senta perto de mim e vai me ensinando”, relata.
Para Ana Maria, cada avanço representa a possibilidade de conquistar mais autonomia e deixar de depender de outras pessoas para situações simples do cotidiano.
Da escola à formação para o trabalho
A permanência também ganhou um novo componente com a parceria entre a EJAI e o Senai para a oferta de cursos profissionalizantes destinados aos estudantes da modalidade. Os estudantes têm acesso aos cursos de auxiliar de produção de massas, padeiro e confeiteiro, motor a diesel, técnico de instalações prediais e eletricista. As formações têm carga horária de 160 horas e são organizadas de forma integrada à rotina escolar.
Na segunda etapa da parceria, iniciada com as atividades de abertura realizadas na última quinta e sexta-feira (6 e 7 de agosto), novos alunos também passaram a ter acesso à formação profissional. A organização permite conciliar a formação básica com a qualificação profissional, sem interromper os estudos. A proposta considera as necessidades dos próprios estudantes, muitos dos quais já trabalham ou buscam uma oportunidade de inserção profissional. Para quem já atua em determinada área, a formação também possibilita ampliar conhecimentos e obter certificação profissional. Dessa forma, a qualificação complementa a escolarização e aproxima os estudos das perspectivas profissionais dos alunos.
Para Luana Santos, coordenadora pedagógica da EJA para as escolas do campo, a formação profissional amplia o significado da modalidade e abre novas possibilidades para os estudantes.
“Hoje, a EJAI não é vista apenas como um lugar de alfabetização, mas como um espaço de oportunidades. O aluno pode concluir os estudos, obter uma certificação profissional e, a partir dessa formação, buscar uma fonte de renda ou até começar o próprio negócio”, avalia.
O secretário municipal de Educação, Esporte e Lazer, Clériston Mota, destaca que a formação profissional foi pensada para ampliar as perspectivas dos estudantes e fortalecer a permanência na escola.
“Estamos oferecendo cursos para que esses alunos tenham uma profissão, ampliem seus conhecimentos e tenham mais oportunidades no mercado de trabalho”, destaca.
A formação profissional não substitui a educação básica. Ela está integrada à organização da modalidade, permitindo que os estudantes conciliem os dias de aula com os cursos profissionalizantes. A EJAI atende estudantes com trajetórias muito diferentes. Há jovens e adultos que interromperam os estudos para trabalhar, moradores de comunidades rurais e idosos que decidiram voltar à escola depois de décadas.
O acompanhamento pedagógico é realizado em 22 escolas, com atenção às características das comunidades e às experiências de vida dos estudantes. A modalidade preserva a estrutura curricular da educação básica, com conteúdos de diferentes áreas do conhecimento adaptados à realidade local. Na prática, esse trabalho aproxima os conteúdos das experiências dos próprios estudantes, utilizando situações relacionadas à agricultura, à cultura, à economia e ao território onde vivem.
Para Ana Maria, o resultado esperado é maior do que um certificado. É poder fazer sozinha aquilo que, durante boa parte da vida, precisou pedir a outras pessoas que fizessem por ela.
O crescimento da EJAI em Correntina é acompanhado pelo compromisso da gestão municipal de garantir que jovens, adultos e idosos tenham não apenas a oportunidade de voltar à escola, mas também condições para permanecer, aprender e ampliar suas possibilidades de autonomia e qualificação profissional.
Mais notícias
Prefeitura de Correntina apresenta contas do 2º quadrimestre e reforça compromisso com transparência
A Prefeitura de Correntina apresentou, em audiência pública realizada na...
Mobilização de saúde beneficia mais de 600 moradores em Correntina
Mais de 600 moradores de Correntina foram beneficiados pelo Mutirão da Saúde...
Campeonato de Futebol de Base movimenta a juventude em Correntina
Com gols, emoção e arquibancadas cheias de famílias, o Campeonato de Futebol...
Correntina inicia digitalização da rede municipal de educação
A Prefeitura de Correntina deu início a um processo inédito de modernização: a...
Correntina revive o desfile de 7 de Setembro após quase uma década
Depois de quase dez anos, Correntina voltou a celebrar o 7 de Setembro com...
Guarda Civil Municipal de Correntina recebe treinamento sobre fraudes veiculares
A Prefeitura de Correntina, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal...






